Não é Não! Sim é Sim!

Meus amigos e amigas,

Pela primeira vez estou publicando uma entrevista com uma companheira e amiga Conceição de Maria P. Rosa. A proposta da entrevista é conversarmos um pouco sobre o papel da mulher na política nacional, estadual e municipal. Aproveitando a oportunidade para comemorar do dia da conquista do Voto Feminino no Brasil, que foi no dia vinte e três de fevereiro último.

Fiquem à vontade em curtir esta entrevista que me surpreendeu pelo conteúdo.

Blog Claudio Nunes (BCN): Conceição, hoje a mulher tem o seu pleno direito a votar semelhante ao homem?

Conceição de Maria: A mulher teve direito ao voto no Brasil, em 1932, sem obrigatoriedade, através do Decreto nº 21.076 instituído no Código Eleitoral Brasileiro, e consolidado na Constituição de 1934. A luta pelo voto feminino no Brasil e no mundo já havia começado há tempos. O Brasil poderia ter sido a primeira nação do mundo a aprovar o sufrágio feminino; somente em 1946, o voto feminino passa ser obrigatório considerando que em outros países já exerciam esse direito.
A discussão atual é legitimar o voto para as mudanças democráticas no país, no Estado e nos municípios. A mulher tem papel importante na participação dos espaços dos Poderes para contribuir com a construção das leis. Ainda há um baixo percentual de mulheres na política e o Brasil está na 154ª posição de participação de mulheres na politica e sabedoras que as transformações sociais vem por meio das leis, não tem como não contemplar o recorte de gênero, está nas mãos daquelas que tem conhecimento dos seus direitos e, é notório, ter "a caneta" para revogar as leis e avançar na Constituição, capítulo 5, I, "homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações...". Votamos menos em mulheres e um percentual baixo consegue se eleger.
A pergunta que não podemos deixar de registrar, nós já votamos em mulheres?

BCN: O valor do voto Feminino se torna mais ou menos Importante na conjuntura política atual?

Conceição de Maria: Tem um papel importante porque sendo mais de 50% da população brasileira, as mulheres são atacadas por uma sociedade machista (modelo patriarcal), misógina e sexista que as empurram ao enfrentamento desses desajustes sociais. Votar é também incluir a participação feminina nas cadeiras do Executivo e Legislativo, é avançar para uma sociedade democrática e igualitária. Esse é o papel que cumpre na sociedade para maiores mudanças no campo político, educativo e social. Ter mulheres na politica é um ato de democracia.
Já experimentei a disputa pela candidatura a vereadora em Macaé, quando saímos as ruas vimos que cidadãos e cidadãs não estão preparados para votar em mulheres. Nos acham honestas, com planejamento, com propostas concretas mas não para o voto e representá-los. Chegou a hora de entender que a mulher também além de outras funções que exerce no dia a dia, pode e deve participar da politica e tê-las juntas partilhando os mesmos ideais, é avanço no amadurecimento da democracia.

BCN: Olhando para Macaé, município do interior do Estado do Rio, tão sacrificada em relação a pouca geração de emprego, com a redução de renda e com problemas crônicos com a violência, na sua visão como pessoa pública, mulher, negra, mãe e avó enxerga como saída através de políticas públicas?

Conceição de Maria: A saída de segmentos importantes da sociedade está nas políticas públicas (onde envolve direitos a todos).
Macaé até a década de 70 sobreviveu da pesca, maior economia da época, houve também fábricas de malhas que empregou na sua maioria mulheres. Final da década de 70, chega a Macaé, a Petrobras que trouxe impactos mas também progresso, Macaé passa de cidade do interior e turística para a cidade industrial, antes conhecida como Princesinha do Atlântico, passa a cidade-dormitório e Capital do Petróleo. A violência veio a galope, acontece em qualquer lugar onde muda o perfil da cidade. E a população se tornou flutuante.
As mazelas sociais cresceram onde surgem os movimentos sociais e como cidadã macaense não tem como me furtar de ter um olhar de mudanças para sociedade que engloba o cuidado com as crianças, os jovens, às mulheres, a população negra, os idosos, enfim, todos que se enquadram como minoria.
E a politica ainda nos favorece esse espaço de decisões, de projetos de leis, de audiências e emendas que só participando que poderemos sonhar e ter esperanças pelas mudanças.

BCN: Infelizmente tanto o executivo do governo estadual do Rio e Federal são marcados não somente por falas que denigrem as mulheres, mas também implementam ações públicas que diminui o espaço político das mulheres e limitam suas ações. O que você pode dizer sobre isso?

Conceição de Maria: Avançamos nas participações de seminários, atos de ruas, reuniões integradas e conferências, esta última importante para a participação da sociedade civil. As Conferências de Políticas para Mulheres teve participação nas três esferas, Municipal, Estadual e Federal. É a voz que chega nas esferas onde as politicas públicas se fazem, é eco social.
Vivemos o retrocesso e digo, parece que demos passos para trás de 50 anos; o desrespeito às mulheres são gritantes na estância Estadual e Federal. Querem nos coisificar mas precisamos estar atentas e atentos para continuar no levante de nossas bandeiras.
Como assumir os espaços de poder se nos tiram todos os dias? Estamos aqui para somar e multiplicar e não dividir e diminuir, às operações são claras.

"... ser pré candidata a vereadora é pensar no coletivo e neste as Mulheres estão inclusas."

BCN: Por fim, você é a atual presidenta do PCdoB de Macaé e pré candidata a vereadora do município. O que o PCdoB e você tem como proposta para as mulheres macaense?

Conceição de Maria: Digo a você, que ser pré candidata a vereadora é pensar no coletivo e neste as Mulheres estão inclusas.
A maior pauta para a atualidade é discutir mercado de trabalho e geração de renda porque quando a mulher está inserida no mercado de trabalho com carteira assinada, ajuda no sustento da família e evolui em conhecimento onde aspirará outros espaços. Importante também a formação de lideranças políticas. Outro projeto que precisamos pensar é creche de 6 meses a 1 ano e 11 meses (não existe em Macaé) porque as mães precisam trabalhar, precisam sustentar os filhos e precisam contar com o Estado para facilitar esse período da vida. É preciso tranquilizar essas mães.
O PCdoB valoriza a participação da mulher nas esferas de decisões democráticas com a composição do Diretório Nacional e Estadual, incluindo a Secretaria da Mulher que realiza plenárias e encontros com reflexões para a unidade e o exercício da democracia. Dá-nos a liberdade da luta diária para participar de movimentos que inclui desde atendimento às mulheres vítimas de violência, aos grandes debates e valoriza as vagas nos pleitos eleitoral.

BCN: Fico muito agradecido pela entrevista e estou certo que amigos e amigas que acompanham o blog estão da mesma forma. Fique à vontade em fechar a entrevista.

Conceição de Maria: As mulheres têm discutido as cotas de gênero no Parlamento e outros Poderes. Têm discutido a participação em outras instituições e entidades.
Entendemos que este novo século nos coloca como protagonistas em alguns espaços. Precisamos de um projeto que desenvolva o Brasil, como nação brasileira que coloque como bandeiras principais a educação, a saúde, a cultura, o trabalho e renda e a segurança pública.
Lembro dos versos do poema, De Mãe, de Conceição Evaristo: "Foi mãe que me fez sentir, as folhas amassadas, debaixo das pedras...."
É hora de reagir, de caminhar no sentido que temos que fazer muito e evoluir, e que muitas vezes nos sentimos sozinhas mas olhamos para o lado e observamos que unidas somos arcabouço de resistência e luta.