Chá e pão com Costela

"Porventura, isso que vos digo é apenas um mero ponto de vista humano? Ora, a própria Lei não afirma claramente o mesmo? Pois está escrito na Lei de Moisés: "Não amordace o boi enquanto ele estiver debulhando o cereal". Por acaso é com bois que Deus está preocupado? Ou certamente não estaria fazendo tal afirmação por nossa causa? É evidente que é em nosso favor que esse princípio foi escrito. Pois "o lavrador quando ara a terra, e o debulhador quando tira as cascas das sementes, deve fazê-lo na esperança de participar dos resultados da colheita". 1 Coríntios 9:8-10

Amados,

Estou no aeroporto de Curitiba aguardando chegar o horário das 11:15h para tentar antecipar o voo e conseguir chegar à tempo para assistir ao jogo do Flamengo no Maracanã que ocorrerá as 16h. O primeiro jogo do ano.

Neste meio tempo, após tomar um chá com pão recheado com costela, senti a vontade de escrever, mas acho que o cardápio não foi o motivador (risos). Interessante, que neste momento, estou pensando como começar a escrever, com que frase exatamente deveria iniciar.

Nada fácil.

Na procura de um local para tomar café, me deparei com uma situação que me assustou: não havia atendente. O pedido era feito em um Totem, inclusive o pagamento, sem auxílio de nenhum funcionário.

Eram 4 totens. E também, 4 postos de trabalho extintos.

Então me lembro da conversa com um motorista de Uber de Curitiba, onde o mesmo entendia que o que tem prejudicado o país é o "custo Brasil". Enfatizando que o custo que o empresário possui para empregar, treinar e demitir um trabalhador eleva muito este "custo Brasil".

Voltando ao café, valor do lanche: R$ 18,40.

Foi reduzido o número de funcionários, porém o preço não seguiu essa mesma tendência. Busco em minha mente e não me lembro de aumento de impostos comparado ao ano de 2013 e 2014, quando estávamos em pleno emprego. Então, se não houve aumento de impostos, aumento de empregabilidade e nem a diminuição do preço do produto, o que houve então?

Aumento da margem de lucro.

Além disso, se houve corte de empregos, resultou no aumento do número de pessoas sem renda e por consequência, famílias sem renda. Diante disso, temos mais dificuldade em consumir o chá e o pão com costela, ou seja, queda nas vendas, e por conseguinte, diminuição do lucro.

Seguindo essa lógica, a solução para diminuir o "custo Brasil" não passa na perda de direitos dos trabalhadores ou retirada de obrigações ao empresariado, principalmente no que se refere a proteção social aos trabalhadores e suas famílias (Saúde, férias, salário digno e etc).

Mas sim, na geração de emprego.

O Estado Brasileiro tem a responsabilidade de intervir na economia utilizando os instrumentos que possui, ou caso não os tenha, que Ele crie ou compre, para gerar emprego e renda.

Em vários momentos em nosso país o Estado interviu com grande sucesso na solução desta questão. Exemplos recentes, vou citar logo abaixo. Achei em uma pesquisa rápida no google:

2007 - Dos R$ 504 bilhões do PAC, Petrobras deve entrar com R$ 144 bilhões.

2008/9 - Redução do Índice da Construção Civil - ICC e das taxas de juros e aumento dos prazos para financiamento habitacional pela CEF.

2010/11 - Bancos Públicos baixam tarifas e taxas forçando bancos privados a baixarem também.

Por outro lado, existe interferência do Estado que tem efeito contrário, isto é, geração de desemprego e o aumento do "custo Brasil".

Lembrando que o silêncio do Estado não quer dizer ausência de interferência. Pois, deixar os Agentes Privados impor o ritmo que desejam é uma forma de interferir na economia. Tenho o entendimento que o termo de "Estado mínimo" é uma forma bonita e moderna de falar que é o Agente Privado vestido de Estado.

Quando o Agente Privado ocupa a função do Estado, temos consequências negativas para o país e para o próprio Agente Privado Nacional, como por exemplo o fechamento da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados do Paraná - FAFEN-PR, onde foi a última a ser fechada no país. Um movimento que a Petrobrás, empresa estatal, iniciou em 2016 com fechamento das fábricas de Sergipe, Bahia e a interrupção do término da fábrica em Mato Grosso.

São 1.000 famílias atingidas em Araucária-PR. A expectativa é que mais duas empresas fecharão em decorrência do fechamento da FAFEN-PR, totalizando no mínimo 3.000 famílias atingidas.

O fechamento da FAFEN-PR levou o Brasil a se tornar um importador de fertilizantes nitrogenadas, isto é, dependência do mercado externo e geração de emprego e tecnologia fora do Brasil.

Estive no ato do dia 17/01 (ontem) em frente a fábrica. Lá estavam técnicos, seguranças, mecânicos, eletricistas, caldeireiros, supervisores, coordenadores e gerentes funcionários da FAFEN-PR, como também os terceirizados.


O que me marcou foi a presença de esposos, esposas e muitas crianças no ato. Estas vestidas com o uniforme dos pais.

Revoltante. (não foi por causa do uniforme)

Mas uma frase de um dirigente sindical do Sindiquimica-PR, o qual representava a terceira geração da família que trabalhou ali, me marcou: "É necessário transformar a raiva e a revolta em Luta".

E ele está certo! Este movimento do Estado de aprofundar o desemprego e a retirada de direitos dos trabalhadores e seus familiares não é limitado ao Paraná. Está em todo o país. E nós trabalhadores e trabalhadoras precisamos Lutar.

Mas esta LUTA não é individual. É COLETIVA.

Destaco também uma frase de um pastor batista que resume bem o que estou tentando expressar neste artigo: "A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar" - Martin Luther King.

A injustiça que ocorreu nos estaleiros do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Pernambuco que geraram o desemprego e atingiram mais de 50.000 famílias, ameaçou a justiça em todo lugar.

A injustiça dos dois acidentes ambientais que ocorreram em Minas Gerais nos últimos dois anos, ameaçou a justiça em todo lugar.

A injustiça das mortes das crianças no alojamento do Centro de Treinamento do Flamengo, ameaçou a justiça em todo lugar.

Enquanto não transformamos nossa revolta, indignação e luto em Luta, eu e você estaremos sendo culpados de alimentar a injustiça em todo lugar.

Quer saber como transformar sua revolta em luta? Utilize os comentários do artigo ou entre em contato através do blog www.claudionunes.com.br .